Tratamento periodontal e diabetes: por que essa pauta é tão importante?
- Arua Dagnone

- 15 de jan.
- 3 min de leitura
Sem promessas mágicas: o que a ciência realmente mostra sobre raspagem, HbA1c, antibióticos e a hora certa de pensar em cirurgia periodontal.
Tratamento periodontal e diabetes: por que essa pauta é tão importante?
Quando falamos em tratamento periodontal e diabetes, a pergunta que mais aparece é direta:“Tratar a gengiva melhora a glicemia?”
A resposta honesta é: pode ajudar, sim — de forma modesta, porém relevante, especialmente em pessoas com pior controle glicêmico no início. E, ao mesmo tempo, melhora sinais clínicos importantes como sangramento e profundidade de sondagem (SIMPSON et al., 2022).
Resumo científico
A terapia periodontal não cirúrgica (raspagem e alisamento radicular + controle de biofilme) está associada a uma redução média de HbA1c em torno de 0,3% a 0,5% em 3–6 meses em comparação a controle (SIMPSON et al., 2022).
O efeito tende a ser mais evidente em pacientes com HbA1c mais alta no início (CHEE et al., 2025; QUINTERO et al., 2018).
Antibiótico não é rotina: como “adjuvante para todo mundo”, não mostrou benefício consistente adicional na melhora glicêmica (SIMPSON et al., 2022).
Cirurgia costuma ser pensada depois da fase não cirúrgica, em sítios selecionados, quando ainda existem bolsas profundas e dificuldade de acesso/controle.
O que é “tratamento periodontal não cirúrgico” (a famosa raspagem)?
É o tratamento mecânico que remove biofilme e cálculo (tártaro) acima e abaixo da gengiva, reduzindo a inflamação e criando condições para o paciente controlar melhor o biofilme em casa.
Em linguagem simples: é como “reorganizar o terreno” para a gengiva cicatrizar e voltar a um estado mais estável.
Raspagem melhora a HbA1c?
As melhores sínteses de evidência mostram que a terapia periodontal pode reduzir a HbA1c em curto prazo (3–6 meses), em média, de forma modesta (SIMPSON et al., 2022).
Isso não substitui endocrinologista, dieta, exercício ou medicação — mas entra como parte do cuidado integrado. E aqui vale uma reflexão quase filosófica:o corpo melhora quando a inflamação crônica diminui. A periodontite é uma inflamação crônica; tratá-la é tirar “lenha” do fogo.
“Então todo diabético deve tomar antibiótico junto com a raspagem?”
Em geral, não.
Antibiótico não deve ser usado como “atalho” para resolver o que é, na base, um problema de biofilme e inflamação crônica. As revisões mostram que, como conduta rotineira, não há benefício adicional consistente na melhora da HbA1c ao adicionar antibióticos sistêmicos à terapia mecânica (SIMPSON et al., 2022).
Quando antibiótico pode ser considerado (caso a caso)?
A decisão é clínica e individual, e pode fazer sentido em situações selecionadas (por exemplo, quadros agudos específicos, certos perfis de doença, ou quando o planejamento exige). Mas isso deve ser avaliado com critério, porque antibiótico tem custo biológico: efeitos adversos, resistência bacteriana e risco de “falsa sensação de solução”.
✅ Regra prática: primeiro a base bem feita (instrumentação + higiene + manutenção). O resto é adjuvante, não protagonista.
Quando a cirurgia periodontal entra no plano?
O caminho clássico e mais previsível costuma ser:
orientação e controle de biofilme
terapia periodontal não cirúrgica (raspagem/alisamento)
reavaliação clínica
manutenção
A cirurgia costuma entrar quando:
persistem bolsas profundas em sítios específicos após a fase não cirúrgica;
há dificuldade de acesso para controle adequado;
o caso exige abordagem adicional para melhorar previsibilidade (SIMPSON et al., 2022).
Em outras palavras: cirurgia não é “primeira bala” na maioria dos casos. Ela é, muitas vezes, um recurso pontual e estratégico, após reavaliar resposta à terapia inicial.
Se eu estiver com a HbA1c alta, devo adiar todo tratamento?
Na maioria das vezes, não faz sentido adiar o controle periodontal básico, porque inflamação ativa não é boa companheira de um metabolismo já desorganizado. O que muda é o planejamento, o ritmo, a previsibilidade e, principalmente, a necessidade de coordenação com o médico, sobretudo para procedimentos mais invasivos.
✅ O mais sensato é: levar a HbA1c recente, revisar medicações e planejar o cuidado de forma segura.
O tratamento periodontal e diabetes se conectam pela via da inflamação. Tratar a periodontite melhora saúde gengival e pode contribuir para melhora do controle glicêmico em parte dos pacientes (SIMPSON et al., 2022; CHEE et al., 2025; QUINTERO et al., 2018).
Se você é de Rio Claro e região e tem sangramento gengival, mau hálito persistente ou suspeita de periodontite, agende uma avaliação periodontal.E se você é dentista e quer dominar esses protocolos com embasamento e tomada de decisão clínica, conheça meus programas de formação em periodontia.
Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica. Em caso de suspeita ou descontrole de diabetes, procure seu médico.
Referências
CHEE, H. K. et al. Long-term effect of periodontal therapy on HbA1c changes in type 2 diabetes. 2025.
QUINTERO, A. J. et al. Effect of Two Periodontal Treatment Modalities in Patients With Uncontrolled Type 2 Diabetes Mellitus: A Randomized Clinical Trial.
SIMPSON, T. C. et al. Treatment of periodontitis for glycaemic control in people with diabetes mellitus. Cochrane Database of Systematic Reviews, 2022. Art. No.: CD004714.





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