Diabetes e periodontite: por que essa conversa importa?
- Arua Dagnone

- 13 de jan.
- 4 min de leitura
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Quando falamos em diabetes e periodontite, não estamos misturando assuntos por “moda”. A relação entre as duas condições é tão consistente que a periodontite já foi descrita como uma das complicações do diabetes (LÖE, 1993, CHEE et al., 2026).
E aqui vai um ponto importante: muitas vezes a periodontite é silenciosa. Ela pode avançar por anos com poucos sintomas evidentes, até que apareçam sinais como mobilidade dentária, retração gengival ou “espaços” entre os dentes (PRESHAW, 2013).
O que é periodontite
A periodontite é uma inflamação crônica que acontece quando o biofilme bacteriano ao redor dos dentes deixa de estar em equilíbrio e passa por uma disbiose — ou seja, ocorre uma mudança na composição e no comportamento desse biofilme, favorecendo microrganismos associados à doença. Em pessoas suscetíveis, essa disbiose “desregula” a resposta inflamatória do organismo e pode levar à destruição do tecido de suporte do dente (gengiva, ligamento periodontal e osso alveolar). O resultado pode ser: bolsas periodontais, perda óssea
e, em fases avançadas, mobilidade e perda dentária (PRESHAW, 2013).
Como o diabetes pode piorar a periodontite?
De forma bem direta: quando a glicemia fica elevada por períodos prolongados, o organismo tende a entrar em um estado inflamatório mais intenso e com reparo tecidual menos eficiente. Isso ajuda a explicar por que o diabetes se associa a:
maior suscetibilidade a infecções e inflamações;
maior gravidade da periodontite em muitos pacientes;
cicatrização mais lenta e, por vezes, resultados menos previsíveis (CHEE et al., 2026; SCHLIEPHAKE, 2022).
✅ Tradução clínica: se o diabetes está descompensado, a gengiva frequentemente “perde a paciência” mais rápido.
E por que a periodontite também pode piorar o diabetes?
Aqui entra o conceito de “mão dupla”. A periodontite é uma inflamação crônica e pode contribuir para aumento de mediadores inflamatórios sistêmicos, o que, em termos biológicos, pode dificultar o controle metabólico (PRESHAW, 2013; MADIANOS; KOROMANTZOS, 2017; CHEE et al., 2026).
✅ Tradução humana: inflamação crônica é como um ruído constante no organismo — e o metabolismo não gosta de ruído.
Sinais de alerta: quando desconfiar?
Se você tem diabetes (ou suspeita) e percebe um ou mais destes sinais, vale investigar:
gengiva sangrando ao escovar ou passar fio dental;
mau hálito persistente (halitose) ou gosto ruim na boca;
gengiva inchada e vermelha;
pus na gengiva (supuração);
dentes “amolecendo” (mobilidade);
sensação de que os dentes “mudaram de posição” ou abriram espaços;
histórico de “limpezas” frequentes, mas o problema volta (PRESHAW, 2013; CHEE et al., 2026).
“Mas eu tenho diabetes e não sangra…” isso significa que está tudo bem?
Nem sempre.
A ausência de sangramento pode ocorrer por vários motivos e não é sinônimo automático de saúde. Existem casos em que a pessoa tem perda de suporte importante, mas com inflamação clínica menos evidente naquele momento. Por isso, o diagnóstico periodontal não se baseia em um único sinal: ele envolve sondagem, avaliação de profundidade de bolsa, perda de inserção, além de exames de imagem quando necessário (PRESHAW, 2013).
Cicatrização e diabetes: por que pode ser mais lenta?
Muitos pacientes com diabetes percebem que a boca “demora mais” para se recuperar após procedimentos. Isso faz sentido: o estado hiperglicêmico se associa a alterações inflamatórias e de reparo, o que pode afetar a previsibilidade clínica (SCHLIEPHAKE, 2022; CHEE et al., 2026).
✅ Na prática: não significa que você “não pode tratar”. Significa que o tratamento precisa ser planejado com rigor, manutenção bem feita e, quando possível, em alinhamento com o médico.
Para pacientes: qual é o recado principal?
Se você tem diabetes, cuidar da gengiva não é só estética. É uma parte real do cuidado de saúde.
E aqui vai uma reflexão que vale como regra de vida:o corpo tolera muita coisa, mas cobra juros altos por inflamação crônica.A periodontite é uma dessas inflamações que não grita — ela sussurra. E, quando a gente ignora sussurros por tempo demais, um dia eles viram consequências.
Para dentistas: por que isso muda conduta?
Diabetes entra como fator modificador de risco e de resposta ao tratamento, especialmente quando o controle glicêmico é inadequado. Isso impacta planejamento, prognóstico, intervalo de manutenção e previsibilidade de cicatrização (CHEE et al., 2026; SCHLIEPHAKE, 2022).
A relação entre diabetes e periodontite é de mão dupla: uma pode agravar a outra (PRESHAW, 2013; MADIANOS; KOROMANTZOS, 2017; CHEE et al., 2026). A boa notícia é que isso abre espaço para uma abordagem integrada: tratar e manter a saúde periodontal faz parte do cuidado global.
Se você é de Rio Claro e região e tem sangramento gengival, mau hálito persistente ou suspeita de periodontite, agende uma avaliação periodontal.
Este conteúdo é informativo e não substitui diagnóstico médico. Em caso de suspeita de diabetes, procure seu médico para avaliação e confirmação laboratorial.
Referências (ABNT)
CHEE, H. K. et al. Long-term effect of periodontal therapy on HbA1c changes in type 2 diabetes. Journal of Dental Research, v. 105, n. 1, p. 67–76, 2026. DOI: 10.1177/00220345251357875.MADIANOS, P. N.; KOROMANTZOS, P. A. An update of the evidence on the potential impact of periodontal therapy on diabetes outcomes. Journal of Clinical Periodontology, p. 1–8, 2017. DOI: 10.1111/jcpe.12836.PRESHAW, P. M. Diabetes and periodontitis: what’s it all about? Practical Diabetes, v. 30, n. 1, p. 9–10, 2013.SCHLIEPHAKE, H. The role of systemic diseases and local conditions as risk factors. Periodontology 2000, v. 88, p. 36–51, 2022. DOI: 10.1111/prd.12409.LÖE, H. Periodontal disease: the sixth complication of diabetes mellitus. 1993.




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